Da centralização à transformação cultural em recursos humanos

Caso de Estudo

Da centralização à transformação cultural em recursos humanos

Objetivos: instalar um modelo integrado de Recursos Humanos capaz de gerar eficiência, autonomia e impacto sustentável no negócio

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Num mercado global profundamente transformado, o setor dos Recursos Humanos enfrenta atualmente uma pressão sem precedentes para equilibrar a tecnologia, a rapidez e a componente humana. A ascensão da inteligência artificial, a transição para organizações baseadas em competências e a necessidade de lideranças mais flexíveis estão a redefinir o trabalho e a elevar as expetativas sobre o papel dos RH.

Ao mesmo tempo, desafios como atrair e reter talento, gerir equipas multigeracionais, promover culturas inclusivas e garantir o bem-estar tornaram-se fatores críticos para a competitividade organizacional. Neste contexto, os RH assumem um papel cada vez mais estratégico e exigente, sendo responsáveis por redesenhar processos, fortalecer culturas e garantir que as equipas evoluem à velocidade da mudança.

Crescimento global, complexidade interna

Presente em mais de 60 países e com cerca de 50.000 colaboradores, esta multinacional dos setores do retalho alimentar e especializado construiu o seu crescimento através da diversificação e expansão contínua do negócio.

À medida que o grupo crescia, também a função de Recursos Humanos se expandia. Novas empresas, novas realidades operacionais, diferentes culturas internas. Para dar resposta, foram sendo criadas equipas de RH dedicadas a cada unidade de negócio.

Contudo, anos mais tarde, surge a necessidade de centralizar. As equipas foram reunidas num centro de serviços partilhados, pois a estrutura estava fisicamente consolidada, mas a operação não.

O desafio: quando a centralização não é suficiente

A decisão de centralizar fisicamente as equipas de Recursos Humanos representou um passo importante na evolução da função. No entanto, rapidamente se tornou evidente que a proximidade física não garantia o alinhamento operacional.

A organização encontrava-se perante um paradoxo: existia um centro de serviços partilhados, mas não existia um modelo único de funcionamento.

A ausência de harmonização gerava ineficiências crescentes e limitava a capacidade da função de RH para responder à expansão do grupo. Os desafios tornaram-se visíveis nos seguintes três níveis distintos.

Falta de alinhamento organizacional

Os macroprocessos não estavam totalmente formalizados e as fronteiras entre equipas nem sempre eram claras. Haviam responsabilidades implícitas, sobreposições e ambiguidades que dificultavam a fluidez do trabalho.

A inexistência de uma arquitetura global estruturada impedia uma visão integrada da cadeia de valor de RH e limitava a capacidade de gestão transversal.

Processos heterogéneos e pouco eficientes

Processos idênticos eram executados de formas diferentes consoante a área de negócio. Multiplicavam-se validações redundantes, controlos duplicados, correções de erros e tempos de espera para aprovação.

Os lead times eram elevados e pouco previsíveis. O retrabalho tornava-se recorrente. A ausência de normas comuns dificultava a medição do desempenho e comprometia a eficiência global.

Esta variabilidade operacional colocava em risco a capacidade da função de RH para absorver o crescimento contínuo do grupo.

Cultura predominantemente reativa

As equipas estavam muito focadas na execução e resolução imediata das solicitações. No entanto, faltavam rotinas estruturadas de análise de desempenho, gestão visual e resolução sistemática de problemas.

A melhoria ocorria de forma pontual e não estava integrada no modelo de funcionamento. A gestão baseada em dados ainda não estava consolidada e a autonomia das equipas era limitada.

Sem um sistema estruturado de melhoria contínua, qualquer ganho obtido corria o risco de não ser sustentável.

Os seus desafios estruturais exigem ação​​

A resposta estratégica à transformação

Perante os desafios identificados, tornou-se evidente que a intervenção teria de ser estrutural e não apenas operacional. Melhorar processos isolados não seria suficiente sem clarificar a estratégia, alinhar a organização e desenvolver as equipas.

A transformação foi conduzida em três frentes complementares:

  • Organização – estratégia e macroprocessos
  • Processos – produtividade e eficiência
  • Equipas – competências e cultura

Cada uma destas frentes respondeu diretamente aos bloqueios anteriormente identificados.

Transformação organizacional assente em organização, processos e equipas

Figura 1 – Modelo de transformação organizacional

Organização – estratégia e macroprocessos

Para ultrapassar o desalinhamento estrutural, foi necessário começar pela base: a arquitetura da função de Recursos Humanos.

Foi realizado um trabalho aprofundado de mapeamento dos macroprocessos, clarificando responsabilidades, interfaces e fluxos entre equipas. Este exercício permitiu identificar macroprocessos ainda não formalizados, bem como zonas de sobreposição que geravam retrabalho e ineficiência.

Ao alinhar a estratégia e os macroprocessos, a organização passou a operar com uma visão integrada da cadeia de valor de RH. A clarificação estrutural criou a base necessária para qualquer ganho operacional sustentável.

Processos – produtividade e eficiência

Para ultrapassar o desalinhamento estrutural, foi necessário começar pela base: compreender como a função de Recursos Humanos realmente operava.

A transformação iniciou-se com um diagnóstico transversal a todos os processos existentes nas equipas. Mais do que mapear tarefas isoladas, procurou-se compreender a cadeia de valor completa da função.

Para identificar os processos críticos, foi utilizada a ferramenta SIPOC (Supplier, Input, Process, Output, Client), permitindo mapear de forma estruturada as relações entre os fornecedores de informação, os inputs recebidos, os processos executados, os outputs gerados e os respetivos clientes internos.

Este exercício trouxe visibilidade a algo que até então estava fragmentado: as interdependências entre equipas e os pontos de fricção no fluxo de informação.

A priorização dos processos teve por base critérios objetivos, como a carga de trabalho envolvida, a frequência de execução e o potencial de melhoria. Esta análise permitiu distinguir claramente os processos estruturantes daqueles que tinham menor impacto na performance global da função.

Com esta visão consolidada, tornou-se possível alinhar estratégia e macroprocessos, clarificar responsabilidades e eliminar sobreposições. A organização passou a operar com uma leitura integrada da sua cadeia de valor, criando a base necessária para qualquer ganho operacional sustentável.

Equipas – competências e cultura

A reengenharia de processos não foi concebida como um exercício técnico isolado. A organização sabia que normalizar fluxos sem alterar comportamentos produziria ganhos temporários, mas não sustentáveis.

Por essa razão, foi desenhado e implementado um modelo estruturado de desenvolvimento e autonomia, aplicado transversalmente a cerca de 30 equipas da Direção de Recursos Humanos. Este modelo não tinha como objetivo apenas melhorar indicadores; pretendia alterar o nível de maturidade operacional das equipas.

Workshops de melhoria contínua

Figura 2 – Equipas a redesenhar processos em ambiente colaborativo

A lógica foi clara: antes de melhorar, era necessário estabilizar. Antes de exigir autonomia, era preciso criar uma base.

A primeira prioridade foi criar estabilidade operacional. As equipas passaram a gerir o seu trabalho através de rotinas claras e indicadores visíveis. O princípio de “falar com dados” substituiu a gestão baseada em perceções. A implementação de quadros digitais de equipa tornou a carga de trabalho, os prazos e os desvios transparentes. A performance deixou de ser implícita e passou a ser discutida.

Com estabilidade criada, tornou-se possível atuar na organização do trabalho. Foram eliminadas fontes de desperdício associadas à desorganização física e digital, foram clarificados fluxos de informação e foram reduzidas interrupções desnecessárias. Esta etapa aumentou a produtividade diária sem necessidade de aumentar os recursos.

Só depois foi possível avançar para a normalização estruturada. Definiram-se normas claras para os processos críticos, estabelecendo a melhor prática conhecida e reduzindo a variabilidade. A Matriz de Competências deixou de ser apenas uma ferramenta formativa e passou a ser um instrumento de gestão: tornou visível onde existiam riscos operacionais e onde era necessário desenvolver polivalência.

Por fim, a organização trabalhou a capacidade de melhoria autónoma. As equipas foram capacitadas em resolução estruturada de problemas, com foco na identificação de causas raiz e não apenas na correção de sintomas. Os líderes de equipa assumiram um papel diferente: deixaram de ser apenas supervisores de execução para se tornarem facilitadores da melhoria.

A transformação cultural não aconteceu porque houve formação. Aconteceu porque o modelo alterou a forma como o trabalho era gerido diariamente.

As equipas passaram a ter visibilidade sobre o seu desempenho, critérios claros de execução e ferramentas para melhorar continuamente. A melhoria deixou de depender de iniciativas externas e passou a fazer parte do funcionamento natural da Direção de Recursos Humanos.

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Resultados alcançados com a implementação do modelo

A implementação do sistema de melhoria contínua na Direção de Recursos Humanos gerou impactos claros, tanto ao nível da performance operacional como ao nível cultural e organizacional.

Resultados quantitativos

Os ganhos operacionais foram evidentes nos principais processos críticos de RH.

No processo de gestão da formação, a taxa de cumprimento do plano anual aumentou de 70% para 100%, assegurando maior previsibilidade e alinhamento com as necessidades do negócio.

No processo de recrutamento e admissão, o tempo médio desde o pedido até ao preenchimento da vaga reduziu-se de 69 dias para 42 dias, representando uma diminuição de 39% no lead time e aumentando significativamente a capacidade de resposta às áreas operacionais.

Ao nível da dinamização interna do sistema de melhoria contínua, destacam-se ainda:

  • 40 workshops realizados com foco em produtividade e eficiência;
  • 624 horas de formação ministradas (excluindo workshops e coaching);
  • 138 reuniões estruturadas de equipa realizadas;
  • 114 oportunidades de melhoria identificadas pelas equipas naturais;
  • 21 quadros digitais implementados para gestão visual e acompanhamento de performance.

Resultados qualitativos

A transformação reposicionou a função de Recursos Humanos dentro do grupo. A centralização deixou de ser apenas estrutural e passou a refletir um modelo operacional integrado, com responsabilidades claras e processos harmonizados.

A cultura de resposta a urgências foi substituída por um modelo de gestão estruturado, baseado em indicadores, análise de desvios e atuação preventiva.

Com standards definidos e uma maior visibilidade operacional, as equipas ganharam autonomia real e assumiram responsabilidade direta pela melhoria dos seus processos.

Esta evolução consolidou uma orientação consistente para o cliente interno e criou um sistema capaz de sustentar crescimento com maior previsibilidade e robustez.

Construir a base para crescer com consistência

Este projeto marcou um ponto de viragem na Direção de Recursos Humanos. O crescimento do grupo tinha exposto fragilidades estruturais que já não podiam ser resolvidas com ajustes pontuais. Era necessário ir à raiz do problema: clarificar, alinhar e reconstruir o modelo de funcionamento.

A decisão de enfrentar esses desafios exigiu coragem organizacional. Significou reconhecer que a centralização física não bastava, que os processos precisavam de consistência e que as equipas necessitavam de novas competências para sustentar o futuro.

O trabalho foi exigente, transversal e profundamente transformador. Implicou rever a arquitetura da função, harmonizar práticas, criar standards, desenvolver líderes e instalar rotinas de melhoria contínua. Nada disto se fez de forma isolada; cada passo foi pensado para construir solidez estrutural e capacidade interna.

O resultado é visível nos indicadores, mas sente-se sobretudo na forma como a função opera hoje. Existe clareza onde antes havia sobreposição. Existe previsibilidade onde antes havia variabilidade. Existe autonomia onde antes havia dependência.

A Direção de Recursos Humanos deixou de acompanhar o crescimento do grupo com esforço acrescido e passou a estar preparada para o sustentar com método e consistência. Foi essa mudança (estrutural, cultural e estratégica) que transformou um projeto exigente num verdadeiro sucesso organizacional.

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