Tarifas sobre o aço e outros metais nos EUA: impacto nas empresas e na cadeia de abastecimento

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Tarifas sobre o aço e outros metais nos EUA: impacto nas empresas e na cadeia de abastecimento

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As tarifas dos EUA sobre o aço e outros metais voltaram a adquirir relevância na estratégia das empresas, num contexto marcado pelo reforço das medidas comerciais adotadas pela administração Trump. Mais do que uma questão de conformidade aduaneira, as atuais tarifas  sobre o aço influenciam os custos de aquisição, as margens, as decisões de sourcing e a configuração das cadeias de abastecimento.

Estas medidas têm como base jurídica principal a Secção 232 da Lei de Expansão do Comércio de 1962, que permite investigar se determinadas importações representam uma ameaça para a segurança nacional dos Estados Unidos. Foi no seguimento de uma investigação ao abrigo da Secção 232 que, em 2018, foram introduzidas tarifas adicionais sobre as importações de aço e alumínio. Desde então, o regime tem sido alterado sucessivamente, com aumentos das taxas, expansão dos produtos abrangidos e novas regras aplicáveis ao aço, ao alumínio e aos respetivos produtos derivados. Em 2025, o mesmo instrumento foi utilizado para abranger também os produtos semiacabados de cobre e os produtos derivados que utilizam intensivamente este metal, os quais se encontram atualmente integrados no mesmo regime.

Para as empresas, o impacto vai muito além do pagamento de uma tarifa da Secção 232 na fronteira. A maior incerteza da política comercial pode provocar alterações nos preços, mudanças nos fluxos de importação, riscos de fornecimento e necessidades adicionais de stock e fundo de maneio. A resposta exige, por isso, uma abordagem estruturada que combine conformidade, visibilidade sobre os custos, gestão do risco de fornecedores e otimização da cadeia de abastecimento.

Neste artigo, analisamos como funcionam as tarifas aduaneiras, quais são as principais tarifas sobre o aço atualmente em vigor nos Estados Unidos e de que forma as empresas podem avaliar a sua exposição, reduzir o impacto financeiro e reforçar a resiliência da cadeia de abastecimento.

O que são tarifas aduaneiras e como funcionam?

As tarifas aduaneiras são impostos aplicados à importação de bens. São utilizadas pelos governos para aumentar a receita pública, proteger setores considerados estratégicos, responder a práticas comerciais consideradas desleais ou influenciar os fluxos de comércio internacional.

Na prática, uma tarifa aumenta o custo de entrada de um produto num determinado mercado. Esse aumento pode alterar a competitividade dos fornecedores, a localização das compras, os preços praticados e as decisões de produção. Por este motivo, as tarifas não afetam apenas a área aduaneira. Podem ter impacto em toda a cadeia de abastecimento, desde o sourcing e o planeamento de stocks até à definição de preços e à gestão da rentabilidade.

Definição de tarifa aduaneira

Uma tarifa aduaneira é um direito cobrado sobre mercadorias importadas. A sua aplicação depende normalmente da classificação pautal do produto, do respetivo valor aduaneiro, da origem declarada e das regras comerciais em vigor no momento da importação.

Uma das formas mais comuns é o direito ad valorem, calculado como uma percentagem do valor aduaneiro da mercadoria. Por exemplo, se um produto com um valor aduaneiro de 100.000 dólares estiver sujeito a uma tarifa de 25%, o direito aduaneiro será de 25.000 dólares.

Também podem existir direitos específicos, calculados por unidade, peso ou volume, ou regimes combinados que conjugam uma percentagem do valor com um montante fixo.

Para determinar corretamente a tarifa aplicável, as empresas devem assegurar uma classificação pautal rigorosa, confirmar as regras de origem e manter os dados necessários à conformidade das importações. Erros na classificação HTSUS (Harmonized Tariff Schedule of the United States), no país de origem ou na declaração do valor podem resultar em pagamentos incorretos, atrasos, penalizações e riscos adicionais de conformidade.

Quem paga a tarifa aduaneira?

A tarifa aduaneira é geralmente paga pelo importador registado quando a mercadoria entra no país de destino. No caso dos Estados Unidos, é o importador, e não diretamente o exportador estrangeiro, que assume perante as autoridades aduaneiras a responsabilidade pelo pagamento dos direitos aplicáveis.

No entanto, quem suporta o custo das tarifas depende da capacidade de cada interveniente para o absorver ou transferir. O importador pode aceitar uma redução da margem, negociar preços mais baixos com o fornecedor, aumentar o preço de venda ao cliente ou combinar várias destas opções.

Assim, embora o pagamento seja efetuado na fronteira pelo importador, o impacto económico pode distribuir-se por toda a cadeia de valor. Fornecedores, fabricantes, distribuidores, clientes empresariais e consumidores finais podem acabar por suportar parte do custo. A resposta à questão “as tarifas aumentam os preços?” não é, por isso, automática, mas na maioria dos casos existe pressão para que pelo menos uma parte do custo adicional seja refletida nos preços.

Transforme a incerteza tarifária numa resposta estruturada

Quais são as atuais tarifas de Trump sobre o aço e outros metais?

As atuais tarifas dos EUA sobre o aço resultam de várias medidas adotadas ao abrigo da Secção 232 e alteradas sucessivamente desde 2018. Embora sejam frequentemente associadas à guerra comercial entre os EUA e a China, estas tarifas não se aplicam apenas aos produtos chineses. São medidas setoriais justificadas por motivos de segurança nacional e podem abranger importações provenientes de diferentes países.

Este regime tornou-se significativamente mais exigente e mais complexo em 2025 e 2026. Além do aumento das taxas, foram eliminadas várias isenções e contingentes pautais, acrescentadas novas categorias de produtos derivados e criadas diferentes taxas em função do tipo de produto e da sua composição. Em sentido inverso, a reorganização de abril de 2026 retirou do âmbito das tarifas centenas de produtos derivados e estabeleceu que, fora dos capítulos pautais especificamente dedicados aos metais abrangidos, a tarifa não se aplica quando o peso agregado desses metais representa menos de 15% do peso total do artigo. Por esse motivo, não existe uma única taxa aplicável a todas as importações de aço.

Tarifas da Secção 232 sobre o aço

A Secção 232 da Lei de Expansão do Comércio de 1962 permite ao Departamento do Comércio dos Estados Unidos investigar se a quantidade ou as circunstâncias em que determinados produtos são importados ameaçam comprometer a segurança nacional.

A administração Trump introduziu, em março de 2018, tarifas adicionais sobre o aço e o alumínio. A medida procurava reduzir a dependência externa e proteger a capacidade produtiva norte-americana em setores considerados essenciais para a defesa, as infraestruturas e a indústria.

A tarifa da Secção 232 é adicional aos direitos aduaneiros normalmente aplicáveis ao produto. Dependendo do caso, pode também coexistir com outros direitos, como medidas antidumping ou de compensação. Não deve ser confundida com as tarifas da Secção 301, dirigidas sobretudo a práticas comerciais consideradas desleais e particularmente associadas às relações comerciais entre os Estados Unidos e a China.

Em fevereiro de 2025, os Estados Unidos terminaram os acordos alternativos que permitiam a determinados países beneficiar de isenções, quotas ou contingentes pautais, consoante o acordo aplicável. As exclusões anteriormente aprovadas mantiveram-se apenas até ao fim da respetiva validade ou até ser utilizado o volume autorizado. Desde então, o Departamento do Comércio deixou de aceitar novos pedidos individuais de exclusão e passou a privilegiar um processo destinado a acrescentar novos produtos derivados ao âmbito das tarifas. Esse processo de inclusões foi, por sua vez, encerrado em abril de 2026, passando a inclusão de novos produtos a depender de decisão discricionária da administração.

Taxas e produtos abrangidos

O regime atualmente aplicável não estabelece uma taxa única para todos os produtos que contêm aço. As taxas dependem da classificação HTSUS atribuída à mercadoria e da lista ou anexo em que o produto está incluído.

Em termos gerais, e sempre em função da classificação HTSUS e dos anexos aplicáveis, as alterações introduzidas em abril de 2026 estabeleceram três níveis principais:

  • Uma tarifa ad valorem de 50% sobre o valor total de determinados produtos metálicos incluídos no respetivo anexo;
  • Uma tarifa de 25% sobre determinados produtos derivados predominantemente constituídos por estes metais;
  • Um tratamento tarifário temporariamente reduzido, aplicável até 31 de dezembro de 2027, que limita geralmente a carga tarifária total a 15% para determinados equipamentos industriais com utilização intensiva de metal e para equipamentos de redes elétricas.

Em junho de 2026, este tratamento tarifário reduzido foi alargado a determinados equipamentos agrícolas e a alguns sistemas e componentes de climatização destinados predominantemente ao mercado residencial. No caso dos equipamentos industriais móveis, a taxa reduzida aplica-se apenas às importações provenientes de países com acordo comercial com os Estados Unidos, mantendo-se a taxa de 25% nos restantes casos. Foi também reduzido de 95% para 85% o limiar de conteúdo metálico exigido para que determinados produtos derivados abrangidos beneficiem da taxa reduzida de 10%, aplicável quando o aço foi fundido e vazado ou o alumínio foi fundido e moldado nos Estados Unidos.

Os produtos abrangidos vão muito além das matérias-primas e dos produtos siderúrgicos tradicionais. Em agosto de 2025, por exemplo, o Departamento do Comércio acrescentou 407 categorias de produtos derivados às tarifas sobre o alumínio e o aço. Assim, uma empresa pode importar um produto que não é habitualmente descrito como siderúrgico e, ainda assim, ficar sujeita a uma tarifa sobre o valor total ou sobre o conteúdo metálico, consoante a classificação pautal aplicável.

Alterações introduzidas em 2025 e 2026

Durante 2025 e 2026, o regime foi alterado em várias etapas relevantes:

  • Fevereiro de 2025: foram reforçadas as tarifas sobre o aço e o alumínio, eliminadas várias isenções nacionais e descontinuado o processo de novos pedidos individuais de exclusão. Foi também criado um mecanismo para incluir categorias adicionais de produtos derivados;
  • Junho de 2025: a taxa adicional aplicável a muitos produtos de aço e alumínio aumentou de 25% para 50%. A nova taxa entrou em vigor em 4 de junho de 2025. Para os produtos abrangidos provenientes do Reino Unido, manteve-se uma taxa específica de 25%, ao abrigo do acordo económico bilateral. Desde abril de 2026, os produtos britânicos beneficiam de taxas reduzidas de 25% ou 15%, consoante a categoria, desde que pelo menos 95% do metal tenha sido fundido e vazado ou fundido e moldado no Reino Unido;
  • Agosto de 2025: foram adicionadas 407 categorias de produtos derivados. Nessa fase, o conteúdo de aço e alumínio desses produtos passou a estar sujeito à taxa de 50%;
  • Abril de 2026: o regime aplicável ao aço, ao alumínio e ao cobre foi reorganizado. Passaram a existir diferentes taxas para produtos metálicos, produtos derivados e determinados equipamentos industriais. A tarifa deixou de incidir apenas sobre o valor do conteúdo metálico e passou a ser aplicada ao valor aduaneiro total dos produtos abrangidos, com a taxa dos produtos derivados a descer de 50% para 25% e a manter-se em 50% a dos produtos metálicos, de acordo com as listas e condições definidas na proclamação;
  • Junho de 2026: foram ajustadas algumas categorias de equipamentos abrangidas pela taxa reduzida e o limiar necessário para que determinados produtos fossem considerados constituídos por metal norte-americano foi reduzido de 95% para 85%;
  • Julho de 2026: foi criado um programa de incentivo ao investimento na produção norte-americana de alumínio primário. As empresas com planos de investimento aprovados podem beneficiar de uma taxa reduzida sobre determinadas quantidades de alumínio primário importado, associadas à capacidade de produção prevista para os novos projetos.

Estas alterações mostram que as tarifas atuais sobre o aço não constituem um regime estático. O âmbito dos produtos, as taxas e as condições podem ser modificados através de novas proclamações, anexos e atualizações da classificação pautal.

Fatores que determinam a tarifa aplicável

A tarifa aplicável a uma importação não pode ser determinada apenas pela descrição comercial do produto. É necessário analisar vários elementos em conjunto:

  • Classificação HTSUS: o código atribuído ao produto na Harmonized Tariff Schedule of the United States determina se este está incluído numa das listas sujeitas às tarifas da Secção 232;
  • Tipo de produto: as regras podem ser diferentes para artigos de aço, produtos derivados, máquinas, componentes ou equipamentos integrados nas categorias temporariamente beneficiadas;
  • Valor aduaneiro: em alguns casos, a tarifa é calculada sobre o valor total da mercadoria. Noutros regimes ou classificações, pode ser relevante o valor associado ao conteúdo metálico abrangido;
  • Conteúdo e origem do metal: podem ser exigidos dados sobre a quantidade, o peso, o valor e a origem do metal incorporado no produto. Para determinados tratamentos introduzidos em 2026, pode também ser necessário confirmar se o aço foi fundido e vazado ou se o alumínio foi fundido e moldado nos Estados Unidos;
  • País de origem e acordos aplicáveis: as regras relativas ao país de origem, eventuais tratamentos específicos e a conformidade com o USMCA podem influenciar outras componentes do tratamento aduaneiro. No entanto, a origem preferencial ao abrigo de um acordo comercial não elimina automaticamente a aplicação de uma tarifa da Secção 232;
  • Data de entrada: a taxa aplicável é normalmente a que está em vigor quando a mercadoria entra para consumo ou é retirada de um entreposto para consumo.

Uma classificação pautal incorreta, a declaração incompleta do conteúdo metálico ou a aplicação indevida de uma exceção podem originar pagamentos adicionais, penalizações e riscos de conformidade aduaneira. Por isso, as empresas devem manter informação técnica fiável sobre os seus produtos e validar a classificação e o tratamento aplicável antes da importação.

Como as tarifas sobre o aço e o alumínio afetam as empresas?

As tarifas sobre o aço e o alumínio podem afetar toda a cadeia de valor, mesmo quando uma empresa não importa diretamente estes metais. O impacto pode chegar através de componentes, equipamentos, embalagens, máquinas ou produtos derivados adquiridos a fornecedores que incorporam o custo adicional nos seus preços.

A dimensão do efeito depende da exposição de cada empresa às importações abrangidas, da disponibilidade de fornecedores alternativos, do peso do metal no custo do produto e da capacidade para transferir os aumentos para os clientes. Em setores com margens reduzidas, ciclos de contratação longos ou elevada dependência de materiais importados, uma alteração tarifária pode ter consequências significativas na rentabilidade e no planeamento operacional.

Aumento dos custos e pressão sobre as margens

O impacto mais imediato das tarifas é o aumento do custo total de importação. Para além do preço de compra, as empresas têm de considerar os direitos aduaneiros, o transporte, os seguros, as despesas de desalfandegamento, os custos administrativos e o financiamento do stock.

Quando um produto está sujeito a uma tarifa elevada, o fornecedor que apresentava o menor preço unitário pode deixar de ser a alternativa mais competitiva. Por isso, as decisões de sourcing devem basear-se no custo total de propriedade e não apenas no preço de aquisição.

O aumento dos custos pode também ocorrer de forma indireta. Um fabricante que compra aço a um distribuidor nacional pode não pagar a tarifa na fronteira, mas pode receber esse custo através de preços mais elevados. O mesmo acontece quando os fornecedores de componentes, máquinas ou produtos derivados transferem para os seus clientes o impacto das tarifas.

Quando a empresa não consegue refletir integralmente o aumento nos preços de venda, a diferença é absorvida pela margem. Esta pressão pode ser particularmente elevada em contratos de preço fixo, negócios com forte concorrência ou setores em que os clientes dispõem de alternativas de substituição.

Impacto nos preços e na procura

As tarifas aumentam os preços quando uma parte do custo adicional é transferida para os clientes. A dimensão desse aumento depende do poder negocial dos intervenientes, da elasticidade da procura, da intensidade da concorrência e da disponibilidade de produtos alternativos.

Uma empresa com uma posição forte no mercado pode conseguir repercutir uma parcela significativa do custo. Em contrapartida, um fornecedor que opera num mercado muito competitivo pode ter de absorver o aumento para evitar a perda de clientes.

Preços mais elevados podem reduzir a procura, adiar decisões de investimento ou incentivar a substituição de produtos e materiais. Um cliente pode optar por uma especificação com menor conteúdo metálico, procurar um fornecedor local ou substituir um equipamento por outro menos exposto às tarifas.

A incerteza também influencia o comportamento dos clientes. Perante a possibilidade de novas alterações na política comercial, algumas empresas antecipam compras, enquanto outras adiam encomendas até existir maior clareza. Estas variações dificultam a previsão da procura e podem criar oscilações relevantes na carga das operações.

Risco de fornecimento e dependência de fornecedores

As tarifas podem alterar rapidamente a competitividade relativa dos fornecedores e dos países de origem. Uma fonte de abastecimento que era economicamente atrativa pode tornar-se significativamente mais cara, obrigando a empresa a procurar alternativas com pouco tempo para realizar a qualificação técnica, comercial e operacional.

A substituição de um fornecedor nem sempre é imediata. Pode exigir testes de qualidade, validação de materiais, aprovação do cliente, alterações de engenharia, auditorias ou investimentos em novos moldes e equipamentos. Em setores regulados, este processo pode ser particularmente longo.

Ao mesmo tempo, um aumento generalizado da procura por fornecedores não abrangidos pode provocar falta de capacidade, subida de preços e extensão dos prazos de entrega. A diversificação geográfica, por si só, também não elimina o risco, sobretudo quando vários fornecedores dependem das mesmas matérias-primas, rotas logísticas ou fontes de produção.

A gestão do risco de fornecedores deve, por isso, incluir uma análise da origem dos materiais, da concentração do volume de compras, da capacidade disponível e do tempo necessário para ativar uma alternativa. Esta visibilidade permite identificar dependências críticas antes de uma alteração tarifária provocar uma interrupção.

Impacto nos stocks, prazos e fundo de maneio

A incerteza associada às tarifas pode levar as empresas a aumentar os stocks para proteger a continuidade do abastecimento ou antecipar a entrada em vigor de novas taxas. Embora esta decisão possa reduzir o risco de interrupção no curto prazo, também aumenta o capital imobilizado, os custos de armazenagem e o risco de obsolescência.

A procura de novos fornecedores pode igualmente aumentar os prazos de entrega. Fontes de abastecimento mais distantes, processos adicionais de conformidade aduaneira e congestionamentos provocados pela alteração dos fluxos comerciais podem prolongar o tempo entre a encomenda e a receção.

Prazos mais longos exigem maiores níveis de stock de segurança e reduzem a capacidade de resposta a alterações da procura. Quando a empresa paga tarifas adicionais no momento da importação, existe ainda um impacto direto no fundo de maneio, uma vez que o desembolso ocorre antes da venda do produto e da recuperação do valor junto do cliente.

Por outro lado, uma tentativa excessiva de reduzir stocks para limitar o capital investido pode aumentar o risco de ruturas. O desafio consiste em encontrar o equilíbrio entre disponibilidade, custo e risco, recorrendo a uma segmentação adequada dos materiais, ao planeamento de cenários e a uma maior agilidade da cadeia de abastecimento.

Como avaliar o risco tarifário na cadeia de abastecimento?

Uma resposta eficaz às tarifas começa por compreender onde está a exposição e qual poderá ser o seu impacto. O objetivo é transformar um risco difuso numa visão estruturada por produto, fornecedor, origem, valor importado e impacto financeiro. Esta base permite concentrar os recursos nos pontos mais críticos e evitar decisões generalizadas que podem aumentar custos sem reduzir significativamente o risco.

Mapear produtos, fornecedores e países de origem

O primeiro passo na gestão do risco na cadeia de abastecimento consiste em identificar os produtos potencialmente expostos, os fornecedores envolvidos e os respetivos países de origem. O mapeamento deve incluir tanto as importações realizadas diretamente pela empresa como os materiais e componentes comprados a distribuidores ou fornecedores intermédios.

Para cada produto, importa reunir informação como:

  • Código interno e descrição;
  • Fornecedor e local de produção;
  • País de origem;
  • País onde o aço foi fundido e vazado ou onde o alumínio foi fundido e moldado;
  • Valor e volume anual das compras;
  • Prazo de entrega;
  • Existência de fornecedores alternativos;
  • Importância do produto para a continuidade da operação.

A análise deve também identificar fornecedores que, embora estejam localizados num país não abrangido por determinada medida, dependem de matérias-primas provenientes de geografias expostas. Conhecer apenas a localização do fornecedor direto pode não ser suficiente para avaliar o risco real.

Confirmar a classificação pautal e o conteúdo metálico

A classificação pautal determina se o produto está incluído nas categorias abrangidas e qual o tratamento aduaneiro aplicável. Uma descrição comercial genérica não é suficiente, uma vez que produtos semelhantes podem ter códigos HTSUS distintos e ficar sujeitos a regras diferentes.

A empresa deve, por isso, validar:

  • O código HTSUS aplicável;
  • A descrição legal correspondente;
  • O valor aduaneiro;
  • A percentagem e o valor do conteúdo metálico;
  • As regras de origem;
  • Os dados sobre o local onde o aço foi fundido e vazado ou onde o alumínio foi fundido e moldado;
  • A eventual acumulação com outros direitos aduaneiros.

Esta validação exige colaboração entre as áreas aduaneira, de compras, engenharia e gestão de dados. Os fornecedores devem disponibilizar informação técnica fiável, incluindo declarações de origem, composição dos materiais e documentação que suporte a classificação. A gestão do risco de conformidade deve, por isso, fazer parte da avaliação global da exposição tarifária.

Calcular o custo total de importação

Depois de identificar os produtos abrangidos, é necessário calcular o custo total de importação. A tarifa não deve ser analisada isoladamente, uma vez que a alteração do fornecedor ou do país de origem pode afetar várias componentes do custo.

O cálculo deve considerar:

  • Preço de compra;
  • Direitos aduaneiros;
  • Transporte e seguros;
  • Custos de desalfandegamento;
  • Armazenagem;
  • Stock de segurança;
  • Custo financeiro do inventário;
  • Controlo de qualidade;
  • Risco de atraso ou interrupção;
  • Custos de transição para um novo fornecedor.

Por exemplo, uma fonte de abastecimento local pode apresentar um preço unitário superior, mas tornar-se mais competitiva quando são incluídos os direitos, os custos logísticos, o fundo de maneio e o risco de fornecimento. O cálculo do custo total de importação deve ser realizado para diferentes cenários de taxa, volume, preço, prazo de entrega e procura. Desta forma, a empresa consegue avaliar não apenas a situação atual, mas também a sua sensibilidade a futuras alterações da política comercial.

Priorizar os produtos e fornecedores mais expostos

Nem todos os produtos exigem o mesmo nível de atenção. A priorização deve combinar a dimensão do impacto financeiro com a criticidade operacional e a dificuldade de substituição.

Os critérios podem incluir:

  • Valor anual dos direitos aduaneiros;
  • Peso da tarifa na margem;
  • Concentração das compras num único fornecedor ou país;
  • Tempo necessário para qualificar uma alternativa;
  • Impacto de uma rutura na produção ou no cliente;
  • Volatilidade do preço e do prazo de entrega;
  • Disponibilidade de stock;
  • Risco de não conformidade.

Com base nestes critérios, os produtos e fornecedores podem ser classificados por nível de risco. As situações com elevado impacto e poucas alternativas devem ser tratadas prioritariamente, enquanto os itens de menor criticidade podem ser acompanhados através de medidas de monitorização mais simples.

Como reduzir o impacto das tarifas aduaneiras?

Depois de quantificar e priorizar a exposição, a empresa deve avaliar diferentes opções de resposta. O objetivo é encontrar a melhor combinação entre custo, disponibilidade, qualidade, risco e capacidade de resposta.

As medidas devem ser analisadas caso a caso. Uma decisão que reduz a tarifa pode aumentar os custos logísticos, prolongar os prazos ou introduzir novos riscos de qualidade. Por isso, a mitigação deve basear-se numa perspetiva integrada da cadeia de abastecimento.

Rever as decisões de abastecimento com base no custo total

O sourcing estratégico deve considerar o custo total de propriedade e não apenas o preço apresentado pelo fornecedor. Esta análise permite comparar alternativas com estruturas de custo e risco diferentes.

Para cada opção de abastecimento, devem ser avaliados:

  • Preço unitário;
  • Direitos e outros encargos;
  • Transporte;
  • Prazo de entrega;
  • Requisitos de stock;
  • Qualidade e fiabilidade;
  • Capacidade disponível;
  • Flexibilidade de volume;
  • Custos de qualificação e mudança;
  • Exposição a novas alterações tarifárias.

A revisão pode demonstrar que o fornecedor aparentemente mais caro apresenta o menor custo total. Pode também revelar oportunidades para renegociar preços, alterar condições comerciais, consolidar volumes ou aproximar o abastecimento dos mercados de consumo.

A relocalização da produção ou das compras pode fazer sentido em alguns casos, mas não deve ser tratada como uma resposta automática. A decisão deve considerar a capacidade industrial disponível, os custos de investimento, as competências necessárias e a sustentabilidade económica a médio e longo prazo.

Diversificar fornecedores e geografias

A diversificação reduz a dependência de uma única fonte e aumenta a capacidade de resposta a alterações tarifárias, restrições comerciais ou interrupções logísticas. No entanto, diversificar não significa simplesmente aumentar o número de fornecedores.

Uma estratégia eficaz deve procurar fontes com perfis de risco verdadeiramente distintos. Dois fornecedores localizados em países diferentes podem depender da mesma origem de aço, da mesma infraestrutura portuária ou da mesma empresa subcontratada.

A empresa pode adotar diferentes abordagens:

  • Criar uma segunda fonte qualificada;
  • Distribuir volumes entre fornecedores de regiões distintas;
  • Combinar abastecimento global e regional;
  • Reservar capacidade adicional em fornecedores críticos;
  • Desenvolver alternativas locais para produtos estratégicos;
  • Estabelecer contratos com maior flexibilidade de volume.

A gestão do risco de fornecedores deve incluir uma avaliação regular da capacidade, da estabilidade financeira, da origem dos materiais, da exposição tarifária e dos planos de continuidade de cada parceiro.

Avaliar materiais e especificações alternativas

A engenharia de produto pode criar oportunidades para reduzir o conteúdo metálico, substituir materiais ou simplificar especificações sem comprometer a função, a segurança ou a qualidade.

As opções podem incluir:

  • Utilização de materiais alternativos;
  • Redução do peso ou da espessura;
  • Redesenho de peças;
  • Revisão de tolerâncias ou requisitos excessivos;
  • Utilização de conteúdo reciclado ou de origem diferente.

Estas alterações devem resultar de uma análise técnica e económica estruturada. Não devem ser realizadas apenas com o objetivo de obter uma classificação pautal mais favorável, sem correspondência com a natureza real do produto. A engenharia pautal deve respeitar integralmente as regras aduaneiras e basear-se em alterações legítimas de design, composição ou processo.

A colaboração com fornecedores desde as fases iniciais pode acelerar a identificação de alternativas e reduzir o tempo necessário para testes, validações e industrialização.

Melhorar o planeamento de stocks e cenários

O aumento indiscriminado dos stocks pode proteger a operação no curto prazo, mas agrava o fundo de maneio e o risco de obsolescência. A resposta deve basear-se numa segmentação dos materiais de acordo com a criticidade, o prazo de reposição, a variabilidade da procura e a disponibilidade de alternativas.

Para cada segmento, podem ser definidas políticas diferentes de:

Imagem ilustrativa das diferentes políticas por segmento

Figura 1 – Diferentes políticas por segmento

O planeamento de cenários permite testar o impacto de diferentes taxas, atrasos, alterações de origem, oscilações da procura e mudanças de fornecedor. Estes cenários devem incluir níveis de resposta predefinidos, evitando que cada alteração tarifária desencadeie decisões improvisadas.

A combinação entre visibilidade, segmentação e planeamento reforça a agilidade da cadeia de abastecimento e permite equilibrar melhor o custo com o risco de interrupção.

Como reforçar a resiliência da cadeia de abastecimento?

Reduzir o impacto imediato das tarifas é importante, mas não é suficiente. A empresa deve desenvolver a capacidade para antecipar alterações, adaptar a rede de abastecimento e implementar respostas de forma rápida e coordenada.

A resiliência da cadeia de abastecimento depende de processos de decisão claros, informação fiável e da colaboração entre diferentes áreas. Devendo também estar integrada no planeamento da continuidade do negócio e na estratégia operacional da organização.

Integrar compras, operações, finanças e engenharia

As tarifas não são apenas um tema da equipa de compras ou de conformidade aduaneira. Afetam simultaneamente o custo, o design do produto, a capacidade produtiva, o inventário, os preços e a relação com os clientes.

Uma resposta eficaz exige a participação de:

  • Compras, na gestão de fornecedores e negociação;
  • Operações, na avaliação do impacto na produção;
  • Finanças, na quantificação de custos, margens e fundo de maneio;
  • Engenharia, na análise de materiais e especificações;
  • Logística e comércio internacional, na classificação e conformidade;
  • Vendas, na gestão de preços, contratos e comunicação com clientes.

A criação de equipas multifuncionais permite avaliar as implicações de cada decisão antes da implementação. Por exemplo, a substituição de um fornecedor pode parecer financeiramente atrativa, mas exigir alterações técnicas ou um período de qualificação incompatível com a urgência da situação.

Desenvolver planos de contingência para riscos críticos

Os produtos e fornecedores classificados como críticos devem ter planos de contingência específicos. Estes planos devem definir as ações a executar, os responsáveis, os prazos e os critérios que justificam a sua ativação.

As medidas podem incluir:

  • Ativação de um fornecedor alternativo;
  • Aumento temporário do stock de segurança;
  • Utilização de uma rota logística diferente;
  • Renegociação de condições comerciais;
  • Substituição temporária de materiais;
  • Transferência de produção;
  • Priorização de clientes ou produtos;
  • Revisão dos compromissos de entrega.

Os planos devem ser realistas e testados. Ter um fornecedor identificado numa base de dados não significa que este esteja preparado para fornecer o volume necessário, cumprir as especificações ou iniciar entregas com rapidez.

A resiliência operacional resulta da existência de alternativas viáveis, previamente avaliadas e prontas a ser ativadas.

Criar mecanismos de monitorização e governance

A incerteza da política comercial exige uma monitorização regular das alterações legais, das taxas, dos códigos abrangidos e das medidas de retaliação adotadas por outros países.

A governance deve definir:

  • Fontes oficiais a acompanhar;
  • Frequência das revisões;
  • Responsáveis pela interpretação das alterações;
  • Produtos e fornecedores afetados;
  • Processo de atualização dos sistemas;
  • Critérios para escalar uma decisão;
  • Indicadores de risco e desempenho.

Esta informação deve ser revista regularmente por uma equipa multifuncional com autoridade para tomar decisões. A monitorização sem um processo claro de resposta cria informação, mas não necessariamente capacidade de ação.

Implementar e acompanhar medidas de mitigação

As medidas selecionadas devem ser transformadas num plano de implementação com responsáveis, prazos, recursos e benefícios esperados. Cada ação deve indicar claramente o risco que pretende reduzir e o respetivo impacto no custo, no serviço e no fundo de maneio.

O acompanhamento pode incluir indicadores como:

  • Redução dos direitos pagos;
  • Redução do custo total;
  • Percentagem de compras com fonte alternativa;
  • Número de produtos com classificação validada;
  • Tempo de ativação de fornecedores alternativos;
  • Redução da concentração geográfica;
  • Impacto no stock e nos prazos de entrega.

Os resultados devem ser comparados com o cenário inicial para confirmar se as medidas estão efetivamente a reduzir o risco. Sempre que os benefícios não se concretizem ou surjam novas alterações tarifárias, o plano deve ser revisto.

Esta disciplina transforma a gestão das tarifas de uma reação pontual numa capacidade permanente de adaptação e melhoria da cadeia de abastecimento.

Das tarifas à resiliência da cadeia de abastecimento

As tarifas sobre o aço e o alumínio afetam muito mais do que os custos aduaneiros. Podem pressionar margens, alterar decisões de abastecimento, aumentar os stocks e criar riscos para a continuidade das operações.

Para responder, as empresas devem avaliar a exposição, calcular o custo total, diversificar fornecedores e preparar cenários alternativos. Com uma abordagem integrada e uma monitorização contínua, a gestão do risco tarifário pode contribuir para uma cadeia de abastecimento mais resiliente, ágil e competitiva.

No Kaizen Institute, apoiamos as empresas a estruturar as suas áreas de sourcing e procurement para responder a contextos de elevada incerteza, como o das atuais tarifas sobre o aço e outros metais. A nossa abordagem combina análise da exposição, custo total de propriedade, diversificação de fornecedores e planeamento de cenários, com o objetivo de reduzir custos, mitigar riscos e reforçar a resiliência da cadeia de abastecimento.

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Ainda tem dúvidas sobre tarifas aduaneiras?

As tarifas sobre o aço nos EUA continuam em vigor?

Sim. As tarifas da Secção 232 sobre o aço continuam em vigor e foram reforçadas e ajustadas em 2025 e 2026, com alterações nas taxas, nos produtos abrangidos e nas condições aplicáveis.

Todos os produtos de aço estão sujeitos à mesma tarifa?

Não. A taxa depende principalmente da classificação pautal e da categoria em que o produto está incluído, podendo também variar em função do conteúdo e da origem do metal, do país de origem e dos tratamentos específicos aplicáveis.

As tarifas aduaneiras fazem aumentar os preços?

Podem aumentar. O importador pode absorver o custo, negociá-lo com o fornecedor ou transferi-lo, total ou parcialmente, para os clientes, dependendo das margens e das condições de mercado.

Como pode uma empresa reduzir a sua exposição às tarifas?

Deve mapear os produtos e fornecedores expostos, validar a classificação pautal, calcular o custo total de importação, diversificar as fontes de abastecimento e preparar cenários e planos de contingência.

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