O desafio operacional por trás do crescimento do retalho omnicanal

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O desafio operacional por trás do crescimento do retalho omnicanal

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O desfasamento entre a ambição do retalho omnicanal e a realidade operacional continua a aumentar. A maioria dos retalhistas já definiu uma estratégia omnicanal, mas poucos desenvolveram as operações necessárias para a concretizar.

Os retalhistas investem em montras digitais impecáveis, programas de fidelização unificados e aplicações móveis apelativas, apenas para descobrir que a cadeia de abastecimento subjacente, os processos de execução e as operações da loja não conseguem suportar o que o front-end promete. Por exemplo, um cliente pode fazer uma encomenda online para recolha na loja e, quando lá chegar, verificar que o artigo não está pronto. Ao mesmo tempo, as lojas frequentemente não têm processos eficientes para receber, inspecionar e repor devoluções online. Esta desconexão estende-se também à visibilidade do inventário: os produtos podem parecer disponíveis online, quando, na realidade, se encontram localizados num centro de distribuição a centenas de quilómetros de distância.

Não se tratam de questões tecnológicas, mas sim de falhas operacionais que evidenciam uma verdade fundamental sobre o retalho omnicanal: o sucesso depende menos da inovação orientada para o cliente e mais da eficiência das operações centrais. A experiência que uma marca promete no seu website na internet é tão fiável quanto a operação por trás dela. Para a maioria dos retalhistas atuais, essa operação foi concebida para uma era diferente.

O presente artigo analisa a complexidade operacional por detrás do crescimento do retalho omnicanal, explica por que razão a maioria dos modelos operacionais do setor não está preparada para tal e descreve o que é necessário alterar nas cadeias de abastecimento, lojas, processos e estruturas organizacionais para transformar as promessas omnicanal em ações consistentes.

Da presença multicanal à integração omnicanal

A evolução dos canais de retalho ocorreu em várias etapas. Primeiro surgiu o canal físico, depois juntou-se o e-commerce, depois o canal móvel, depois os marketplaces. Cada novo canal é tipicamente lançado como uma unidade de negócio separada, com as suas próprias equipas, inventário, gestão de pedidos e responsabilidade de P&L (demonstração de resultados).

Esta estrutura funcionava quando os canais serviam segmentos de clientes diferentes com uma sobreposição mínima. No entanto, o comportamento dos consumidores há muito que deixou de respeitar os limites dos canais. Os compradores pesquisam no telemóvel, comparam no computador, compram na loja e devolvem os artigos por correio. Esperam a mesma disponibilidade de produto, preço e serviço, independentemente do canal através do qual interagem com a marca.

A integração omnicanal exige que operações anteriormente isoladas passem a funcionar como um sistema único, integrado e coordenado. Para isso, o inventário deve estar visível e disponível em tempo real entre diferentes localizações; as encomendas precisam de ser encaminhadas com base numa combinação de fatores, como proximidade, disponibilidade de stock e capacidade operacional; os colaboradores em loja têm de aceder à mesma informação de clientes e produtos utilizada pelas plataformas de e-commerce; e as devoluções, independentemente do canal de origem, devem ser reintegradas no inventário de forma rápida e eficiente.

A mudança não é gradual nem parcial, mas sim estrutural, afetando todos os processos, sistemas de dados e limites organizacionais concebidos para a execução específica de um canal. O que outrora permitiu operações focadas em canais específicos torna-se uma restrição num ambiente cross-channel. Os retalhistas que reconhecem isto desde cedo tratam o omnicanal como uma transformação operacional e não como uma iniciativa de marketing. As empresas que não o fazem acabam por descobrir, da forma mais difícil, que uma abordagem omnicanal verdadeiramente centrada no cliente depende, acima de tudo, de uma execução operacional integrada e consistente.

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O que separa o retalho multicanal do retalho omnicanal

A distinção entre o retalho multicanal e o omnicanal é frequentemente descrita em termos de experiência do cliente: o multicanal oferece escolhas, o omnicanal oferece continuidade. Embora esta descrição seja precisa, é incompleta, pois a principal diferença reside no âmbito operacional.

Num modelo multicanal, cada canal opera de forma independente. A loja online tem o seu próprio armazém, depósito de inventário e equipa de execução de pedidos. As lojas físicas gerem a sua própria reposição de stock. Cada canal otimiza as suas próprias métricas, o que cria limites operacionais claros, mas também introduz redundância, ineficiência e uma visão fragmentada do cliente.

O retalho omnicanal desfaz esses limites. O inventário passa a ser um recurso partilhado em toda a rede; uma loja física funciona simultaneamente como local de venda e como potencial centro de expedição de encomendas online; e um centro de distribuição faz envios para clientes, para lojas e para compradores de marketplaces. A jornada do cliente atravessa os canais livremente e a operação deve acompanhar.

As implicações para a experiência do cliente no setor retalhista são significativas. Quando um cliente entra numa loja após ter navegado online, o colaborador deve ter acesso ao que esse cliente visualizou, ao que adicionou ao carrinho de compras e às suas encomendas ou devoluções recentes. Da mesma forma, quando um cliente contacta o serviço de apoio ao cliente após uma entrega falhada, o agente precisa de ter acesso em tempo real à mesma informação que a equipa do armazém possui. A capacidade de proporcionar esta continuidade depende menos do design do front-end e mais da integração de dados, do alinhamento de processos e da coordenação organizacional incorporada no modelo operacional.

É aqui que a complexidade se multiplica. Enquanto a complexidade multicanal é aditiva, com cada novo canal a acrescentar uma operação paralela, a complexidade omnicanal é multiplicativa, visto que cada canal interage com todos os outros e o número de possíveis caminhos de encomenda, cenários de execução e fluxos de exceção cresce exponencialmente.

Os retalhistas que tentam oferecer uma experiência omnicanal aos clientes, com base em operações multicanal, acabam por gerir o pior dos dois modelos: a estrutura de custos de operar múltiplos sistemas paralelos, à qual se soma a sobrecarga de coordenação para os sincronizar manualmente. A estratégia omnicanal só funciona quando o modelo operacional subjacente é reconstruído em conformidade.

Por que razão estão as operações de retalho a ter dificuldade em acompanhar

A maioria dos modelos operacionais de retalho foi concebida para uma execução centrada na loja, em que esta era o principal canal de receita, o centro de distribuição existia para reabastecer as lojas e tudo, desde os modelos de mão de obra até aos indicadores de desempenho, era estruturado em torno das vendas por metro quadrado na loja.

O omnicanal perturba fundamentalmente este modelo. Cinco desafios operacionais determinam consistentemente se os retalhistas conseguem concretizar as suas ambições omnicanal:

  1. Visibilidade do inventário em tempo real: a base do omnicanal é uma visão única e precisa do inventário em cada localização, como lojas, centros de distribuição, micro-hubs de execução de pedidos e stock em trânsito. A maioria dos retalhistas ainda opera com sistemas de inventário fragmentados, em que as contagens ao nível da loja são atualizadas em lotes, o que leva a discrepâncias entre o que o website mostra e o que está na prateleira. Sem precisão em tempo real, cada capacidade omnicanal construída sobre ela (compra online, levantamento na loja, envio a partir da loja, disponibilidade em tempo real) não é fiável.
  2. Complexidade da execução de pedidos em vários canais:  a execução de pedidos em vários canais, como o “ship-from-store“, o “BOPIS” (Buy Online, Pick Up In-Store), o “ship-to-store“, a entrega no mesmo dia e a execução de pedidos de marketplace, requerem cada um processos diferentes, de recolha, de normas de embalagem e diferentes lógicas de encaminhamento para o destino final. Quando uma loja começa a processar encomendas online e a servir clientes presencialmente em simultâneo, dois fluxos de trabalho concorrentes partilham o mesmo espaço, colaboradores e inventário. Sem processos redesenhados e devidamente coordenados, esta sobreposição operacional gera congestionamentos, erros e conflitos na alocação de recursos.
  3. Integração das devoluções: As devoluções omnicanal (compra online e devolução na loja) são operacionalmente dispendiosas. As devoluções devem ser recebidas, inspecionadas, processadas no sistema e, por fim, recolocadas em stock ou postas à disposição. Muitos retalhistas gerem as devoluções recorrendo a soluções manuais em vez de processos normalizados, o que faz com que o que deveria demorar dois ou três minutos demore quinze ou vinte. Os custos de processamento de devoluções entre canais podem ser duas a três vezes superiores aos das devoluções no mesmo canal.
  4. O papel em evolução da loja: Num modelo omnicanal, a loja física serve simultaneamente como sala de exposições, centro de execução de pedidos, centro de devoluções e ponto de atendimento ao cliente. As operações das lojas de retalho devem suportar as quatro funções sem degradar nenhuma delas. Os colaboradores das lojas necessitam de competências, ferramentas e fluxos de trabalho diferentes. Os indicadores de desempenho ancorados exclusivamente nas vendas na loja tornam-se enganosos quando uma parte significativa da atividade da loja é impulsionada pelo cumprimento de encomendas online.
  5. Silos organizacionais e de dados: quando as equipas de e-commerce e das lojas físicas reportam a líderes diferentes, cada um com orçamentos e KPIs diferentes, a coordenação omnicanal depende da boa vontade de todos em vez de uma estrutura definida. A mesma fragmentação existe nos dados: os dados dos clientes residem no CRM (Customer Relationship Management), os dados de inventário no WMS (Warehouse Management System), os dados das encomendas no OMS (Order Management System) e os dados financeiros no ERP (Enterprise Resource Planning). Sem integração, cada decisão de cross-channel requer reconciliação manual.

Complexidade operacional: A verdadeira barreira ao sucesso do retalho omnicanal

A conversação omnicanal no retalho tem sido dominada pela experiência do cliente e pela tecnologia. O que recebe muito menos atenção é o custo operacional da complexidade, e é este custo que paralisa a maioria dos programas omnicanal.

Cada capacidade omnicanal acrescenta etapas ao processo, integrações de sistemas e criação de exceções. Se nos focarmos apenas, e, usando como exemplo, o modelo ship-from-store este por si só já introduz fluxos de trabalho de recolha, embalagem, coordenação da transportadora e ajuste de inventário que não existiam anteriormente. Ao multiplicarmos isto por todos os modelos de execução de pedidos, todos os caminhos de devolução e todos os cenários de interação com o cliente, o número total de processos operacionais que um retalhista deve gerir pode duplicar ou triplicar em comparação com um modelo apenas de loja física.

Esta complexidade tem um impacto direto na cadeia de abastecimento do retalho. A lógica de reabastecimento que funcionava com base em padrões previsíveis de procura nas lojas deixa de ser eficaz quando estas também começam a processar encomendas online imprevisíveis. A previsão da procura deve ter em conta a mudança de canal. As operações dos centros de distribuição têm de lidar tanto com envios em volume para as lojas como com encomendas individuais diretas ao consumidor, ou seja, dois perfis de preparação de encomendas e expedição fundamentalmente diferentes.

A tentação é resolver esta complexidade recorrendo à automação do retalho e ao investimento em tecnologia. A tecnologia é necessária: sistemas de inventário em tempo real, gestão inteligente de encomendas e preparação de encomendas automatizada são todos parte da solução. No entanto, a otimização dos processos de retalho deve preceder a automação. Automatizar um processo fragmentado não corrige a fragmentação, apenas a amplia. As organizações que primeiro normalizam e simplificam os seus processos e só depois os automatizam, alcançam consistentemente melhores resultados do que as que automatizam primeiro e esperam que a tecnologia compense as lacunas operacionais.

A verdadeira barreira ao sucesso do retalho omnicanal não é a falta de tecnologia ou de estratégia. É, sim, a ausência de uma execução operacional disciplinada, que exige a análise de cada processo, a eliminação do desperdício e a construção da fiabilidade nas operações diárias antes de se acrescentar complexidade.

Num modelo económico tradicional de retalho, um retalhista pode gerir algumas centenas de processos operacionais distintos em toda a sua rede. Com o processamento omnicanal, este número pode aproximar-se de mil ou mais, cada um com os seus requisitos de qualidade, implicações em termos de mão de obra e procedimentos de tratamento de exceções. Quando estes processos não são normalizados e geridos, o custo por interação com o cliente aumenta, ao mesmo tempo que a fiabilidade dessas interações diminui. A pressão sobre as margens é real: os retalhistas omnicanal que não otimizam as suas operações frequentemente descobrem que os seus canais de execução de pedidos com crescimento mais rápido são também os menos rentáveis.

Repensar o modelo operacional de retalho

A transformação do retalho rumo ao omnicanal exige mais do que a adição de capacidades ao modelo operacional existente. É necessário redesenhar o próprio modelo, passando de um modelo organizado em torno de canais para um modelo organizado em torno de uma rede operacional unificada.

Num modelo baseado em canais, cada canal tem o seu próprio processo de execução, alocação de inventário e lógica de otimização. Num modelo baseado numa rede, todas as localizações físicas (lojas, centros de distribuição e hubs de execução de pedidos) passam a funcionar como pontos interligados de um único sistema integrado. O encaminhamento das encomendas tem em conta a rede inteira em simultâneo: que localização tem o artigo, qual está mais próxima do cliente, qual tem capacidade disponível e qual a opção que minimiza o custo total do serviço.

Esta mudança tem várias implicações práticas. As lojas devem ser avaliadas com base no seu desempenho de vendas e na sua contribuição para a rede. Uma loja que processa 200 encomendas online por dia, mantendo uma elevada taxa de conversão na loja, tem um valor superior ao que as suas contas de resultados por loja possam sugerir. Os indicadores de desempenho devem evoluir para refletir esta contribuição para a rede, o que constitui um elemento-chave da melhoria do desempenho do retalho na era omnicanal.

O planeamento da cadeia de abastecimento deve passar da alocação específica por canal para a otimização ao nível da rede. O inventário deve fluir para a localização onde cria mais valor: numa prateleira de loja para clientes presenciais ou num armazém para processamento de encomendas online. Isto requer capacidades de previsão da procura que tenham em conta sinais de procura tanto em loja como digitais.

As estruturas organizacionais têm assim de acompanhar. O alinhamento multifuncional, com KPIs partilhados, processos de planeamento integrados e uma liderança unificada entre canais, não é uma opção. Os operadores omnicanal de maior sucesso abandonaram as equipas online e offline separadas para funções comerciais e operacionais integradas.

O planeamento de recursos humanos também sofre uma mudança fundamental. Num modelo apenas de loja física, os horários de trabalho são impulsionados pelos padrões de tráfego pedonal. Num modelo omnicanal, a mão de obra deve cobrir tanto a procura dos clientes presenciais como o volume de execução de encomendas digitais, que seguem curvas diferentes. Os picos de encomendas online podem não coincidir com os picos de tráfego na loja. Sem modelos de recursos humanos flexíveis que tenham em conta ambos os fluxos de trabalho, os retalhistas ou têm pessoal em excesso numa função (o que erode as margens) ou insuficiente noutra (o que degrada o serviço). Encontrar o equilíbrio adequado exige dados granulares, planeamento adaptativo e autonomia operacional para ajustar recursos dentro de parâmetros previamente definidos.

Neste nível também a governance tecnológica se revela pertinente. O omnicanal gera uma proliferação de sistemas: gestão de encomendas, gestão de inventário, gestão de armazém, POS, CRM, plataformas de devoluções e ferramentas de entrega de último quilómetro (last mile). Sem uma arquitetura de integração clara e um modelo de governance de dados, estes sistemas tornam-se estruturas isoladas que replicam os mesmos silos de canal em formato digital. A tecnologia deve servir um processo integrado e unificado, não o contrário.

Construir a excelência operacional no setor retalhista não é uma iniciativa única. Trata-se de uma capacidade que se desenvolve ao longo do tempo, através da resolução estruturada de problemas, da normalização de processos e da adoção de uma abordagem disciplinada às causas-raiz em vez dos sintomas. Os retalhistas que consideram o omnicanal como um programa com data de conclusão terão dificuldades. Os que o construírem como uma capacidade operacional contínua adaptar-se-ão à medida que os canais, os comportamentos dos clientes e os modelos de execução continuem a evoluir.

O futuro das operações de retalho num ambiente omnicanal

Os retalhistas que estão na vanguarda da execução omnicanal têm uma característica em comum: deixaram de considerar o omnicanal como uma estratégia digital e passaram a considerá-lo uma disciplina operacional. A sua vantagem competitiva não está na tecnologia utilizada. Está na consistência e eficiência com que executam os milhares de microprocessos que ligam a intenção de um cliente a uma encomenda concluída.

A competitividade futura do setor retalhista dependerá sobretudo de duas capacidades: a agilidade operacional e a visibilidade end-to-end. A agilidade operacional consiste na capacidade de absorver novos modelos de execução, as expetativas dos clientes e as dinâmicas do canal sem desestabilizar as operações existentes. A visibilidade implica a existência de dados precisos e em tempo real em toda a cadeia de valor, de modo a garantir que as decisões tomadas em cada nível, desde o centro de distribuição até à loja, estejam alicerçadas numa imagem única e consistente da procura, do inventário e da capacidade.

Os retalhistas que conseguirem integrar a tecnologia, os dados e a tomada de decisão em toda a cadeia de valor estarão melhor posicionados para gerir a complexidade omnicanal e sustentar o crescimento. Os que ainda operam com sistemas fragmentados e estruturas organizacionais em silos terão cada vez mais dificuldade em competir em termos de velocidade e de custo.

A direção é clara: as expetativas dos clientes continuarão a aumentar, as opções de processamento de pedidos continuarão a multiplicar-se e os retalhistas que prosperarão não serão os que têm a tecnologia de front-end mais sofisticada, mas os que têm as operações mais fiáveis, adaptáveis e eficientes por trás dela.

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O padrão que repetidamente observamos nas operações de retalho é o seguinte: um retalhista lança um programa omnicanal ambicioso, investe fortemente em tecnologia e alcança resultados parciais, antes de o impulso estagnar. A tecnologia funciona, mas os processos subjacentes nunca são redesenhados para suportar o novo modelo. As equipas recorrem a soluções alternativas, as exceções acumulam-se e a fluidez prometida nunca se concretiza por completo.

Isto acontece porque a execução omnicanal não é um destino, mas sim um alvo móvel. As expetativas dos clientes mudam, surgem novos modelos de execução e as dinâmicas dos canais alteram-se. Um modelo operacional adequado hoje terá lacunas daqui a seis meses. As transformações de grande dimensão não conseguem acompanhar esta evolução contínua. O que é necessário é uma capacidade sistemática e contínua de identificar atritos, redesenhar processos e melhorar a execução, semana após semana, loja a loja, processo a processo.

Aplicar os princípios kaizen às operações de retalho significa trabalhar com esta granularidade: o processo individual, a loja específica e o ciclo de melhoria semanal. No setor do retalho, esta disciplina operacional aplica-se a três domínios interligados. Nas operações da loja, significa redesenhar os processos de reabastecimento, de modo a garantir que o produto certo esteja no local certo à hora certa; construir layouts flexíveis, que eliminem movimentos sem valor acrescentado; estruturar o agendamento das equipas de acordo com a procura real e não com padrões históricos; e normalizar os fluxos de trabalho da caixa, de forma a gerir as filas sem ser necessário contratar mais pessoal. No que se refere à cadeia de abastecimento, significa redesenhar as redes de execução para o custo de serviço omnicanal, eliminar o desperdício nas operações de armazém e de transporte, sincronizar os fluxos entre centros de distribuição, lojas e transportadoras e considerar as relações com os fornecedores como alavancas para a eficiência do fluxo, em vez de alvos para a otimização das transações. Nos processos orientados para o cliente e administrativos, significa mapear e redesenhar a experiência omnicanal end-to-end: desde a forma como as operações online são estruturadas e como as decisões de stock são tomadas, até à forma como as devoluções são tratadas, as reclamações resolvidas e os serviços pós-venda prestados de forma consistente entre canais. Estas não são oportunidades de melhoria abstratas. São as lacunas operacionais específicas que determinam se um modelo omnicanal cumpre a sua promessa ou se, silenciosamente, erode a margem enquanto aparenta crescer.

A ação sobre estas lacunas requer um ritmo operacional diferente, baseado em práticas que proporcionem visibilidade, normalização e disciplina diária, em vez de intervenções periódicas.

A aplicação do Value Stream Mapping (VSM) a fluxos omnicanal revela desconexões invisíveis ao nível estratégico.  Quando se mapeia toda a jornada de uma encomenda BOPIS — desde o momento em que o cliente clica em “reservar” até ao momento em que sai da loja com o artigo — tornam-se visíveis todas as transições entre equipas e sistemas, os tempos de espera, as interações com plataformas digitais e as intervenções manuais existentes ao longo do processo. E, na prática, o desperdício identificado é quase sempre significativamente maior do que a gestão de topo inicialmente prevê.

O trabalho normalizado estabelece processos de base de referência para atividades como a recolha de artigos para expedição na loja, o processamento de devoluções entre canais e a receção de inventário, que anteriormente eram tratadas de forma diferente em cada localização. Assim que a norma existe, a melhoria torna-se mensurável. Sem esta, cada loja inventa a sua própria abordagem e o desempenho varia enormemente.

As rotinas diárias de melhoria e as sessões estruturadas da equipa, focadas nos problemas operacionais do dia anterior e nos ajustes do dia, contribuem para a criação de uma cultura de deteção de problemas antes que estes se acumulem. Uma taxa de erros de picking que aumente meio ponto percentual esta semana pode tornar-se num problema sistémico de qualidade no próximo mês, se ninguém intervir. As rotinas de KAIZEN™ Diário detetam-no quando ainda é pequeno.

Ainda neste âmbito, os ciclos PDCA permitem também aos retalhistas experimentar novas abordagens operacionais de forma controlada: testar um novo método de processamento de pedidos em três lojas, medir os resultados, aperfeiçoá-lo e, depois, expandi-lo. Isto substitui o standard comum no setor do retalho de implementar um novo processo em todas as localizações simultaneamente, apenas para depois passar meses a corrigir os problemas que vão surgindo.

O resultado é uma operação de retalho que não depende de esforços individuais excecionais ou de uma gestão constante de crises para proporcionar uma experiência consistente ao cliente. Em vez disso, constroem-se cultura, hábitos e ferramentas que tornam a fiabilidade operacional o padrão e a adaptação contínua a norma. Desta forma, a complexidade omnicanal torna-se gerível, pois a organização construiu a capacidade de lhe dar resposta dia após dia.

Passando à dimensão cultural esta não deverá também ser ignorada. A execução omnicanal exige que as equipas no terreno assumam a responsabilidade pelos resultados cross-channel, o que só acontece quando os colaboradores compreendem como o seu trabalho diário está relacionado com a promessa mais ampla feita ao cliente. Um colaborador de loja que encare o processamento de encomendas online como “não é o meu trabalho” dará menos importância à precisão e velocidade da preparação de encomendas. Por outro lado, um colaborador que compreenda o papel da sua loja na rede tratará cada encomenda, seja presencial ou digital, com a mesma disciplina. A construção desta mentalidade requer uma equipa de liderança visível e presente, uma comunicação clara e sistemas de gestão que reforcem a responsabilização omnicanal a todos os níveis.

Os retalhistas que procuram estratégias para impulsionar o crescimento omnicanal acabam por perceber que a verdadeira vantagem competitiva não reside na estratégia em si — até porque a maioria dos concorrentes segue direções semelhantes. O verdadeiro diferencial está na capacidade de executar de forma consistente, sustentada por uma disciplina operacional contínua e aplicada de forma rigorosa ao longo do tempo.

Ainda tem dúvidas sobre o retalho omnicanal?

O que é o retalho omnicanal e em que difere do multicanal?

O retalho omnicanal integra todos os canais orientados para o cliente (lojas físicas, e-commerce, dispositivos móveis e marketplaces) numa operação unificada, sincronizando o inventário, a execução de pedidos, os dados dos clientes e os processos em toda a rede. Por contraste, o retalho multicanal opera cada canal como um negócio separado, com o seu próprio inventário, gestão de pedidos e metas de desempenho. A complexidade operacional do omnicanal é significativamente superior: num modelo multicanal, a complexidade é aditiva; num modelo omnicanal, é multiplicativa, visto que cada canal interage com todos os outros.

Por que é que os programas de retalho omnicanal ficam, frequentemente,  aquém?

A maioria dos programas omnicanal foca-se na tecnologia orientada para o cliente e na estratégia, ao mesmo tempo que investe pouco nas mudanças operacionais necessárias para os suportar. Processos fragmentados, cadeias de abastecimento desconexas, silos organizacionais, e modelos operacionais de loja desatualizados criam lacunas de execução que a tecnologia, por si só, não consegue colmatar. A melhoria sustentada da execução omnicanal requer um redesenho disciplinado dos processos e uma adaptação operacional contínua.

Que papel desempenha a produtividade da loja no sucesso omnicanal?

A produtividade das lojas omnicanal vai para além dos indicadores tradicionais de vendas por metro quadrado. Atualmente, as lojas funcionam como centros de execução de pedidos, centros de devoluções e centros de atendimento ao cliente. A melhoria da produtividade das lojas significa otimizar todas estas funções, garantindo que o processamento de encomendas online, o atendimento ao cliente em loja e o processamento de devoluções operem de forma eficiente, sem competir pelos mesmos recursos limitados.

Quais são os processos operacionais mais frequentemente negligenciados no retalho omnicanal?

A maioria dos retalhistas concentra os esforços de melhoria na execução de encomendas e no controlo de inventário, ao mesmo tempo que subinvestem nos processos que regulam as interações com o cliente: tratamento de devoluções, resolução de reclamações, serviços pós-venda e os fluxos de trabalho administrativos que ligam os canais. Estes processos são frequentemente geridos por meio de soluções informais em vez de procedimentos normalizados, o que cria inconsistências nos momentos exatos em que o cliente mais se preocupa. Mapeá-los e redesenhá-los, end-to-end, incluindo a forma como as decisões de stock são tomadas e como as operações online são estruturadas, é tão importante como otimizar a cadeia de abastecimento física.

De que forma é que a melhoria contínua apoia as operações de retalho omnicanal?

À medida que os modelos de execução evoluem e as expetativas dos clientes mudam, as operações omnicanal geram uma complexidade contínua. A melhoria contínua oferece uma abordagem estruturada para identificar o desperdício, normalizar os processos e construir a fiabilidade operacional ao longo do tempo. Ao incorporarem rotinas de melhoria diária nas suas operações, os retalhistas podem adaptar-se mais rapidamente e sustentar uma execução consistente entre canais, em vez de dependerem de programas de transformação periódicos.

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