- No que diz respeito à integração da AI na estratégia de negócio, 42% das empresas estão ainda numa fase de integração inicial, marcada sobretudo pela implementação de projetos-piloto de inteligência artificial, sem adoção estrutural à escala do negócio;
- Face à proposta de OE2026, 32% dos líderes não antecipam impactos relevantes nas operações;
- 30% dos gestores assinalam limitações em processos internos ou estruturas menos ágeis como um dos principais desafios à execução da estratégia;
- O Barómetro KAIZEN™ inquiriu mais de 250 gestores, de médias e grandes empresas, que atuam no mercado português e que, no seu conjunto, representam mais de 35% do PIB nacional.
Em 2025, o tecido empresarial português deparou-se com um contexto económico global caracterizado por elevada incerteza, tensões geopolíticas persistentes e políticas de juros elevados na zona euro. Estes fatores aumentaram os custos de financiamento e influenciaram decisões de investimento, ao mesmo tempo que as empresas enfrentaram pressões internas ligadas à gestão de talento, processos, estruturas organizacionais e exigências de sustentabilidade.
Apesar deste ambiente desafiante, a confiança média dos gestores na economia nacional manteve-se estável, com uma pontuação de 13, ligeiramente superior aos 12,7 registados na edição anterior do Barómetro Económico, realizada em março de 2025.
Este resultado evidencia que, mesmo num contexto de incerteza, as empresas portuguesas mantêm uma postura equilibrada e focada na prossecução dos seus objetivos estratégicos.
Mercados globais: impacto e adaptação das empresas portuguesas
A perceção sobre as tensões geopolíticas continua a ser acompanhada atentamente pelos gestores, embora os efeitos diretos se mantenham, na maioria dos casos, moderados. 42% preveem que o impacto se mantenha semelhante ao atual nos próximos 12 meses, enquanto 39% antecipam apenas repercussões ligeiras. Este panorama reflete a capacidade dos líderes portugueses de interpretar os riscos externos de forma prática, tomando decisões estratégicas informadas e adaptadas à realidade do contexto económico.
No comércio internacional, os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos apresentam-se diversificados. 29% das empresas registaram aumentos marginais de custos devido às tarifas, 29% realizaram ajustes pontuais em processos, projetos ou preços, e 29% não identificaram impactos relevantes. Estes resultados evidenciam que, apesar de serem um tema crítico para o comércio global, o efeito direto nas operações das empresas portuguesas tem sido controlável e localizado, permitindo que a maioria das organizações mantenha estabilidade operacional.
Execução estratégica e desafios internos
A execução da estratégia corporativa permanece um ponto central de complexidade para as empresas. 44% dos empresários identificam a gestão de talento como o principal obstáculo à implementação de iniciativas, refletindo a dificuldade em atrair, formar e reter profissionais qualificados. De seguida, 40% destacam a burocracia regulatória e a instabilidade política/fiscal como barreiras que condicionam decisões e prazos e 30% assinalam limitações em processos internos ou estruturas menos ágeis. Estes fatores demonstram que, mesmo com estratégias claras, a sua execução depende veementemente da flexibilidade organizacional, da capacidade de adaptação das equipas e da integração entre liderança e operação.
Paralelamente, a resiliência energética surge como prioridade operacional. 49% das organizações possuem mecanismos de proteção para sistemas críticos, mas reconhecem que interrupções prolongadas poderiam afetar significativamente a produção e o serviço ao cliente. Este dado sublinha a importância de uma gestão proativa de risco, incluindo a diversificação de fontes de recursos e a implementação de sistemas de contingência, assegurando a continuidade das operações.
Planeamento estratégico e perspetivas para 2026
No horizonte de 2026, os gestores portugueses abordam o futuro com prudência, mas mantêm confiança nas suas capacidades de adaptação. Face à proposta de OE2026, 32% dos líderes não antecipam impactos relevantes nas operações, enquanto 31% preveem pequenas alterações no planeamento ou nas despesas operacionais (OPEX) e 27% identificam ajustes pontuais em projetos, orçamento ou políticas internas. Estes dados refletem uma leitura estratégica equilibrada: apesar das alterações legislativas e fiscais previstas, a maioria dos administradores demonstra capacidade para manter a continuidade das operações, ajustando-se de forma gradual e estruturada às mudanças do ambiente económico. A postura adotada revela, ainda, que os responsáveis pelas empresas estão a consolidar práticas de planeamento robustas e mecanismos internos de controlo, assegurando que qualquer impacto potencial seja gerido de forma eficiente, sem comprometer os objetivos estratégicos ou a estabilidade operacional.
No domínio remuneratório, a política de bónus de produtividade mantém-se consistente, com 70% dos administradores a planear preservar os níveis atuais. Este dado reflete uma aposta clara na valorização do desempenho individual e coletivo, alinhando incentivos com objetivos estratégicos e operacionais das empresas. A manutenção destes bónus surge num contexto em que a competitividade pelo talento continua elevada, evidenciando que as organizações procuram recompensar resultados e reforçar a motivação e retenção das equipas. Além disso, a estabilidade na política de bónus transmite uma mensagem de previsibilidade e confiança interna, permitindo às empresas planear com segurança e sustentar uma cultura de desempenho orientada para resultados, mesmo perante pressões económicas e desafios externos.
Face às taxas de juro elevadas, 42% das empresas não registam efeitos relevantes, beneficiando da baixa dependência de financiamento externo, enquanto 37% enfrentam encargos financeiros acrescidos, conseguindo ajustar a sua gestão de capital sem impactar o desempenho operacional. Esta realidade evidencia a capacidade de gestão financeira das empresas, que equilibram custos de capital elevados com a manutenção de operações estáveis. As organizações têm recorrido a estratégias como a renegociação de dívida, o reforço do autofinanciamento e ajustes internos na alocação de recursos, demonstrando uma abordagem prudente e estruturada. Este equilíbrio permite proteger a liquidez e a saúde financeira, ao mesmo tempo que sustenta decisões de investimento e crescimento mesmo num contexto económico volátil, reforçando a resiliência e a competitividade das empresas portuguesas.
Transformação digital e ESG
A transformação digital continua a ser uma prioridade central, com a inteligência artificial a emergir como um dos principais vetores desta mudança. Contudo, 42% das empresas indicam que apenas possuem projetos piloto, evidenciando que, apesar de reconhecida como estratégica, a maturidade operacional da IA ainda não está consolidada. A intenção de transformação existe, mas a passagem para aplicações concretas, escaláveis e com impacto direto na produtividade continua a ser um desafio. Os projetos piloto são essenciais para testar casos de uso, medir retorno e identificar barreiras estruturais antes de avançar para investimentos mais significativos. No entanto, a permanência prolongada nesta fase pode refletir limitações de competências, falta de clareza estratégica, processos pouco estruturados ou receios sobre custos de implementação. A adoção estratégica de IA não é apenas tecnológica, mas sobretudo organizacional. Uma transformação digital eficaz exige alinhamento entre tecnologia, processos, pessoas e modelo de negócio, apoiada por liderança comprometida e cultura de melhoria contínua. Empresas com este mindset conseguem transformar pilotos em capacidades estratégicas consistentes, escaláveis e integradas na operação diária.
Do ponto de vista da sustentabilidade, 35% dos gestores destacam que práticas ESG reforçam a reputação e a confiança junto de clientes, investidores e colaboradores. Estes dados demonstram que a sustentabilidade deixou de ser apenas uma exigência regulatória, transformando-se num fator estratégico de competitividade, capaz de fortalecer a posição das empresas no mercado e contribuir para uma cultura corporativa orientada para responsabilidade e confiança institucional.
Desempenho empresarial e continuidade operacional
O desempenho das empresas portuguesas mantém-se resiliente: 41% reportam atividade estável ao longo do ano, enquanto 53% acreditam que conseguirão atingir os objetivos anuais. Esta estabilidade operacional é reforçada pela gestão das equipas, com 63% das organizações a não planear reduções de efetivos, evidenciando a prioridade dada à continuidade do negócio e à manutenção do conhecimento interno.
Ao combinar adaptação às pressões externas, foco na eficiência operacional, investimento em tecnologia e integração de práticas de sustentabilidade com estabilidade interna, as empresas portuguesas demonstram preparação para enfrentar desafios futuros. Esta capacidade de equilibrar inovação, prudência financeira e gestão interna sólida garante competitividade e resiliência num ambiente económico global marcado por incerteza.
“As reflexões partilhadas reforçam um cenário de incerteza, que trará desafios significativos e decisões complexas para as empresas portuguesas. Apesar da pressão externa, esta edição evidencia que são os desafios internos – a agilidade dos processos, a gestão de talento e a estrutura organizacional – que terão maior impacto na capacidade de execução. A experiência tem-nos mostrado que o desempenho sustentável não depende apenas de tecnologia, capital ou contexto, mas da cultura que define como as equipas colaboram, resolvem problemas e executam com disciplina. Quando estes comportamentos se tornam hábitos diários – e quando a liderança os vive na primeira pessoa – a adaptação deixa de ser reativa e passa a ser contínua e incremental.” – António Costa, Senior Partner do Kaizen Institute Western Europe.
O Barómetro KAIZEN™ é um estudo semestral do Kaizen Institute, realizado junto de administradores e gestores de médias e grandes empresas em Portugal, que avalia a sua perspetiva sobre temas de atualidade, evolução económica e tendências de mercado. A edição de março inquiriu mais de 250 gestores, representando, no seu conjunto, mais de 35% do PIB português.
