Como o Kaizen Transformou a Produção em uma Indústria Alimentícia

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Da Instabilidade à Excelência: Como o Kaizen Transformou a Produção em uma Indústria Alimentícia 

A Empresa 

Uma fábrica com história, desafios e potencial 

Dentro de uma renomada indústria do ramo alimentício, localizada no estado de São Paulo, uma planta produtiva operava com alta complexidade e grande representatividade nacional. Produzindo uma linha variada de itens, essa fábrica combinava tradição, alta exigência sanitária e ciclos produtivos acelerados. 

Embora estruturada em termos de equipamentos e times, a unidade enfrentava desafios operacionais que limitavam sua capacidade de atingir patamares mais altos de performance. As dificuldades se intensificavam com o crescimento da demanda e a necessidade de maior estabilidade na rotina fabril. 

O Desafio 

Processos críticos e impacto direto na produtividade 

No coração da produção, a linha T7 apresentava interrupções constantes, que prejudicavam a produtividade e aumentavam os custos operacionais. As dosadoras e encartuchadeiras, máquinas essenciais ao processo, paravam com frequência, gerando muito tempo improdutivo e retrabalhos. As causas dessas falhas iam desde ajustes imprecisos no setup até problemas técnicos como pó na selagem e cartuchos mal posicionados. 

Falta de padronização e excesso de variabilidade 

Na área de macro pesagem, os operadores lidavam com uma sequência de tarefas sem padrão, em um layout desorganizado, com movimentações excessivas, estoques mal distribuídos e ausência de gestão visual. A separação de matérias-primas era afetada pela duplicidade de fracionamentos, etiquetas com informações inconsistentes e risco elevado de contaminações cruzadas. 

Comunicação fragmentada entre turnos 

A troca de informações entre turnos era informal, sem estrutura clara, o que resultava em perda de contexto, falta de alinhamento e baixa visibilidade sobre indicadores e planos. A operação recomeçava a cada novo turno como se fosse o início de uma jornada, o que comprometia a continuidade das ações e criava sensação de incerteza entre os times. 

Abordagem 

Três pilares para uma transformação sistêmica 

A resposta a esse cenário veio por meio de um projeto de melhoria contínua estruturado em três frentes: Daily Kaizen, Kobetsu Kaizen e Cell Design. Cada uma atuou de forma complementar, atacando as causas de instabilidade com profundidade, envolvimento da equipe e disciplina na execução. 

Implantação do Daily Kaizen: rotina com propósito 

A rotina operacional passou por uma transformação completa. Foram criadas reuniões estruturadas de passagem de turno, com agenda visual, horários fixos e participação ativa de todas as funções: operadores, supervisores, manutenção, qualidade e administrativo. 

Esses encontros passaram a ocorrer três vezes por dia, ao início de cada turno, e traziam à tona os principais resultados do turno anterior, desvios operacionais, planos de produção, setups críticos e indicadores como volume produzido, eficiência, número de paradas e qualidade. 

Com a instalação de quadros visuais junto às linhas e definição clara dos papéis, a cultura de análise passou a fazer parte do cotidiano da equipe. A liderança se aproximou do chão de fábrica, e o time começou a participar ativamente da resolução de problemas. 

Kobetsu Kaizen: solução de problemas na raiz 

Dois projetos de Kaizen pontual (Kobetsu Kaizen) foram aplicados na linha T7. O primeiro teve como foco as dosadoras, que paravam frequentemente devido a falhas relacionadas ao pó na selagem e erros de setup. A equipe aplicou ferramentas como o Diagrama de Ishikawa e os 5 Porquês para entender as causas reais do problema. Foram descobertas falhas no padrão de montagem, ausência de kits completos de setup e lacunas nos treinamentos dos operadores. 

As soluções implementadas incluíram a criação de kits padronizados, tabelas visuais de montagem por produto, reestruturação do plano de capacitação e adoção do conceito de “dupla checagem” para garantir a conformidade das montagens. 

O segundo Kobetsu focou nas paradas da encartuchadeira causadas por cartuchos abertos. A análise revelou que, além da qualidade dos cartuchos, havia falta de limpeza planejada, falhas de sincronismo e problemas na manutenção preventiva. Um cronograma de paradas técnicas foi implementado, as tarefas de inspeção foram padronizadas e os procedimentos de troca de formato passaram por revisão técnica e prática com os operadores. 

Redesenho da pesagem: o Cell Design 

A área de macro pesagem foi redesenhada com base no conceito de Cell Design. O primeiro passo foi mapear o estado atual, identificar os desperdícios e simular, por meio de mockups, alternativas de layout e fluxo. O novo modelo organizou os fracionados em ilhas por volume e frequência de consumo, definiu posições fixas para SKUs de alta demanda, e separou fisicamente as áreas de fracionamento e de separação. 

Um fluxo em “U” com rota definida e buffers visuais permitiu melhor aproveitamento do espaço, maior controle sobre a separação e redução significativa da movimentação de operadores. A lógica de abastecimento passou a funcionar com sinalização por pallet vazio, operando como um sistema puxado e visual. 

Resultados 

Queda nas paradas e aumento da eficiência 

A reorganização dos setups e a melhoria técnica nas máquinas levaram à redução das paradas não programadas na linha T7. O tempo improdutivo das dosadoras e encartuchadeiras foi drasticamente reduzido, com menor necessidade de intervenção manual e maior estabilidade dos equipamentos. A uniformização dos kits de setup e os novos treinamentos resultaram em maior previsibilidade e menor variabilidade nos processos críticos. 

Na macro pesagem, o novo layout proporcionou um fluxo mais enxuto, menor esforço físico dos operadores e menos erros por duplicidade ou falta de identificação. A previsibilidade aumentou, os desperdícios foram reduzidos e o risco de contaminação foi praticamente eliminado. 

Cultura de melhoria e liderança presente 

O novo modelo de Daily Kaizen consolidou uma rotina de acompanhamento disciplinada e colaborativa. As reuniões passaram a ser mais objetivas e participativas, com foco em dados reais, análise crítica e tomada de decisão conjunta. Auditorias apontaram que mais de 90% dos critérios de maturidade da rotina foram atendidos, com destaque para clareza dos papéis, aderência aos indicadores e frequência dos encontros. 

A principal conquista, no entanto, foi a transformação cultural. As equipes passaram a enxergar os problemas como oportunidades de aprendizado. A liderança técnica ganhou protagonismo, e o espírito de colaboração se fortaleceu. A fábrica que antes operava em modo reativo passou a agir com foco, método e disciplina. A excelência deixou de ser um conceito abstrato e passou a ser construída diariamente, com a participação ativa de quem está no centro da operação: o time. 

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